Há uma pergunta desconfortável para qualquer estúdio de design: se hoje conseguimos chegar a uma boa solução em menos tempo porque temos mais experiência, o trabalho deve passar a valer menos?

É uma das limitações do preço à hora. A unidade parece simples e transparente, mas liga o valor do trabalho ao tempo necessário para o executar. Quanto mais eficiente se torna a equipa, menor pode parecer o esforço e, por consequência, menor o preço que essa lógica permite justificar.

Em Portugal, esta discussão já aparece na forma como alguns estúdios e empresas de serviços profissionais pensam o pricing. Entre preço à hora, preço fechado e preço por valor, não existe uma fórmula única, nem devia existir. O problema começa quando o tempo de execução passa automaticamente a ser a principal medida do valor do trabalho.

Num projeto estratégico, nem sempre é isso que o cliente está a comprar.

Um rebranding para uma empresa estabelecida não serve apenas para produzir um novo logótipo, uma paleta ou um website. Pode corrigir uma perceção desalinhada, preparar a entrada num novo mercado, sustentar uma mudança de posicionamento ou tornar a equipa comercial mais clara na forma como apresenta o negócio.

A diferença está em perceber se a proposta está a vender horas de execução ou uma mudança que essas horas ajudam a tornar possível.

A hora mede esforço, não mede necessariamente valor

A taxa horária tem vantagens. É fácil de perceber, permite estimar trabalho e pode funcionar bem quando o âmbito é incerto ou quando existe uma componente contínua de suporte.

O problema aparece quando passa a ser a principal forma de justificar um trabalho cujo valor depende sobretudo da qualidade das decisões.

Um diretor de marca não precisa de vinte horas de pesquisa por serem vinte horas. Precisa de chegar a uma direção que permita à empresa decidir sem regressar à estaca zero. Um fundador não precisa de uma semana de wireframes porque uma semana parece uma quantidade justa de trabalho. Precisa de uma arquitetura de informação que ajude potenciais clientes a perceber rapidamente o negócio e a avançar.

Quando a conversa fica presa ao número de horas, começa facilmente a deslocar-se para perguntas como quantas revisões estão incluídas, quanto tempo demora cada etapa ou se determinada tarefa pode ser retirada para baixar o preço.

Essas perguntas podem ser legítimas. Mas não deviam substituir a mais importante: o que precisa de ficar diferente quando este trabalho terminar?

Preço por valor não é simplesmente cobrar mais

Também é fácil transformar “preço por valor” numa expressão bonita para justificar um número mais alto.

Não basta retirar as horas da proposta e apresentar um preço fechado. Se não existir uma relação clara entre o investimento e o problema que está a ser resolvido, continua a haver apenas um preço sem contexto.

Esta discussão também existe no mercado português. A Shelf aborda modelos de preço e pacotes aplicados aos serviços de design, enquanto a Macro Consulting explora a passagem da hora para modelos baseados em valor nos serviços profissionais.

As duas abordagens não são exatamente a mesma coisa, mas partem de uma pergunta comum: se o cliente não está apenas a comprar tempo, o que está realmente a comprar?

No design, responder a essa pergunta obriga a perceber o contexto antes de calcular entregáveis. Que bloqueio existe hoje? O que está a impedir a empresa de avançar? Que decisão precisa de ser tomada? O que acontece se nada mudar?

Só depois faz sentido perceber que trabalho é necessário.

O preço deve acompanhar aquilo que muda

Imagina duas empresas que pedem exatamente a mesma coisa: uma nova identidade visual.

A primeira está a começar e precisa de um sistema mínimo para conseguir apresentar-se de forma coerente. A segunda já existe há quinze anos, tem uma operação estabelecida e está a tentar corrigir uma perceção que deixou de acompanhar aquilo em que o negócio se tornou.

O entregável pode chamar-se “identidade visual” nos dois casos. O problema não é o mesmo, o risco não é o mesmo e aquilo que a decisão pode desbloquear também não é.

É por isso que contar logótipos, páginas ou horas pode ser insuficiente para comparar valor.

O preço por valor tenta aproximar a proposta dessa diferença. Não significa cobrar um número arbitrário em função da dimensão do cliente. Significa perceber o contexto da decisão antes de definir o âmbito e o investimento.

E os pacotes?

Há outra forma de sair da dependência da hora: fechar o âmbito e vender por projeto ou por pacote.

A Shelf, por exemplo, aborda esta lógica aplicada aos serviços de design, com uma estrutura mais clara de entregáveis, âmbito e preço.

É uma solução útil quando o serviço é suficientemente repetível para que o estúdio consiga antecipar aquilo que vai entregar.

Mas preço fechado e preço por valor não são exatamente a mesma coisa.

Um pacote responde sobretudo a uma pergunta de âmbito: o que está incluído?

O preço por valor começa noutra: o que é que este trabalho precisa de mudar?

Em alguns projetos, as duas abordagens podem coexistir. O resultado pretendido ajuda a definir a solução e o investimento e, depois, um âmbito claro protege tanto o cliente como o estúdio durante a execução.

Uma proposta deve explicar o preço antes de o mostrar

Uma proposta forte não começa na tabela de entregáveis.

Começa por devolver ao cliente aquilo que foi entendido: o problema, o contexto, aquilo que está em causa e o que precisa de ficar diferente.

Só depois aparecem a abordagem, as decisões a tomar e os entregáveis necessários para chegar lá.

Quando essa sequência está bem construída, o preço deixa de surgir como um número isolado no fim de um PDF. Existe uma lógica que liga investimento, trabalho e consequência.

Também é importante separar aquilo que cria direção daquilo que aplica essa direção. Estratégia, posicionamento e arquitetura exigem decisões. Design de interfaces, produção de conteúdos ou desenvolvimento transformam essas decisões em algo visível e utilizável.

Misturar tudo numa lista única pode fazer parecer que todas as tarefas têm exatamente o mesmo papel no resultado.

Nem todos os projetos devem ser vendidos por valor

Há situações em que a hora continua a fazer sentido.

Trabalho de manutenção, suporte continuado, pedidos difíceis de prever ou projetos em que o cliente controla grande parte da utilização da equipa podem beneficiar de um modelo temporal. Também há trabalhos suficientemente repetíveis para funcionarem melhor com preço fixo e âmbito fechado.

O problema não é existir preço à hora. É usá-lo automaticamente, mesmo quando aquilo que está a ser vendido é capacidade de diagnóstico, direção e decisão.

O modelo deve acompanhar a natureza do trabalho.

O que vale a pena perguntar antes de enviar uma proposta

Antes de colocar um preço num projeto de design, há uma pergunta que fazemos questão de conseguir responder:

O que é que o cliente está realmente a tentar comprar?

Se a resposta for apenas um website, uma identidade ou um conjunto de peças, provavelmente ainda estamos a falar do entregável.

O problema costuma estar uma camada abaixo.

Pode ser confiança. Clareza. Diferenciação. Capacidade de entrar num novo mercado. Uma experiência que deixou de representar o nível atual do negócio.

É aí que começa a conversa sobre valor.

Um estúdio deixa de competir apenas por tarifa quando consegue tornar visível a diferença entre produzir alguma coisa e ajudar uma empresa a tomar uma decisão que precisava de tomar.